Gestar um bebê em regiões onde o Aedes aegypti circula nunca foi tarefa simples. Agora, um levantamento de fôlego acaba de revelar a extensão do problema. Pesquisadores da Fiocruz Bahia cruzaram dados de quase 7 milhões de nascimentos no Brasil para medir o impacto de dengue, zika e chikungunya em grávidas e recém-nascidos.
Os resultados, publicados em agosto na revista Nature Communications, confirmam aquilo que médicos já percebiam no dia a dia: essas infecções estão diretamente ligadas a parto prematuro, baixo peso, morte neonatal e, no caso do zika, a graves anomalias congênitas.
O que o estudo encontrou
A equipe do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) analisou registros do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (SINASC), de Doenças de Notificação Compulsória (SINAN) e de Mortalidade (SIM) referentes ao período de 2015 a 2020.
Entre 6,9 milhões de partos, 19 mil mães tiveram dengue (0,3%), 8 300 receberam diagnóstico de zika (0,1%) e pouco mais de 6 mil contraíram chikungunya (menos de 0,1%) durante a gestação. Mesmo em porcentagens modestas, os efeitos foram marcantes:
- Chikungunya: maior probabilidade de parto prematuro, nota baixa no Apgar e morte neonatal, especialmente quando a infecção aconteceu no segundo ou terceiro trimestre. O vírus pode ser transmitido na hora do parto, provocando convulsões e hemorragias no bebê.
- Dengue: febre alta, desidratação e alterações na coagulação favoreceram prematuridade, baixo peso e piora no Apgar, sobretudo no fim da gravidez. Casos confirmados em laboratório mostraram aumento na mortalidade neonatal.
- Zika: manteve o posto de maior ameaça. A infecção, sobretudo no primeiro trimestre, esteve associada a microcefalia, calcificações cerebrais e alterações oculares e auditivas. O trabalho também encontrou malformações em infecções tardias, no terceiro trimestre, fato considerado incomum até então.
Por que as complicações acontecem
Os três vírus desencadeiam inflamações sistêmicas e podem comprometer a placenta. No zika, há afinidade pelas células que formam cérebro e medula, o que interrompe o desenvolvimento neural. Já a dengue, com queda de plaquetas e risco de hemorragia, provoca sofrimento fetal e costuma antecipar o parto.
Imagem: Internet
Cuidados recomendados no pré-natal
Especialistas sugerem confirmar o diagnóstico o quanto antes, acompanhar o desenvolvimento do feto com ultrassonografias seriadas e monitorar sinais de alerta, como febre persistente e sangramentos. Não existe tratamento antiviral específico; o manejo foca em hidratação, controle da temperatura e vigilância materno-fetal intensiva. Grávidas com dengue grave precisam de unidades com suporte obstétrico e neonatal, enquanto casos de zika exigem ultrassom morfológico detalhado e seguimento em medicina fetal.
Como a maior parte das gestantes afetadas vive em áreas com infraestrutura precária, os autores reforçam a necessidade de tratar as arboviroses como questão de saúde materno-infantil. Vigilância adequada e atendimento obstétrico especializado podem reduzir drasticamente os desfechos graves.
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