Rebecca Pimenta Rafael Pacheco passou a vida inteira acreditando que havia herdado sangue grego. Desde criança, ouvia que o pai era um marinheiro helênico que embarcara em um petroleiro ancorado em São Sebastião (SP) e desaparecera antes mesmo de saber da gravidez. Com duas fotos e um nome estrangeiro na memória, a estudante alimentou por décadas o sonho de encontrar o suposto progenitor do outro lado do mundo.
Essa narrativa caiu por terra quando ela decidiu encarar um teste de DNA voltado à ancestralidade e a doenças genéticas. O exame, pedido em 2023, não só descartou qualquer vestígio grego, como apontou parentes vivos no Brasil. A descoberta embaralhou lembranças, mudou rotas e abriu caminho para um reencontro emocionante com a verdadeira família paterna.
Um mito construído na infância
Moradora de São Sebastião, Rebecca cresceu com a mãe, o padrasto e a fantasia de que o rosto estampado na foto fosse seu pai grego. Mesmo sabendo das dificuldades de rastrear um marinheiro do passado, ela mantinha a esperança de reconhecê-lo um dia. Em 2022, o noivo, Bruno Soalheiro, presenteou a jovem com uma viagem à Grécia. Por lá, o casal vasculhou bares, ruas e pequenos portos em busca de pistas, sem sucesso.
De volta ao Brasil, a história ficou adormecida até 2023, quando a estudante iniciou o curso de Nutrição em São Paulo. Durante aula sobre processos biológicos, o professor apresentou o teste de DNA da Genera, e a ferramenta de busca por parentes acendeu uma nova possibilidade. Pouco depois, Bruno comprou o kit para ela.
A amostra foi enviada com certo atraso – o medo de descobrir algo doloroso falava alto. Trinta dias depois, o resultado chegou e confirmou a ausência de ascendência grega. Rebecca buscou ajuda em vídeos na internet e encontrou Núbia Santos, que já havia localizado o próprio pai usando o mesmo serviço. As duas analisaram juntas o laudo e constataram possíveis conexões com uma família do Rio de Janeiro.
Do kit de DNA ao reencontro com José Cláudio
A pista decisiva surgiu em outubro de 2023: uma prima de terceiro grau apareceu na lista de correspondências. Por meio dela, Núbia enviou uma foto da mãe de Rebecca a José Cláudio Pacheco, que vivia na capital fluminense. Ao ver a imagem, ele lembrou imediatamente do breve relacionamento em São Sebastião, três décadas antes, e topou realizar o exame de confirmação.
O primeiro encontro presencial aconteceu no dia da coleta de sangue. Rebecca chegou tremendo, acompanhada do marido e da amiga. Do outro lado, José Cláudio levou a esposa, a filha e a neta. O clima era de ansiedade, mas também de acolhimento: na mesa do almoço, ele já fazia planos para o fim de ano com a “nova” filha.
Imagem: Internet
Semanas antes da divulgação do laudo, José Cláudio levou Rebecca para conhecer o avô paterno, internado na UTI. Foi a única visita antes da morte do idoso, resultado ainda pendente. Quando o parecer enfim saiu, a tela exibiu 99,99999999% de compatibilidade. Rebecca lembra de se sentir “fora do próprio corpo”, como se assistisse a uma cena de cinema.
Primeiro Dia dos Pais juntos
Confirmada a paternidade, pai e filha passaram a se falar quase diariamente e se encontrar a cada dois meses. Em 2024, celebraram o primeiro Dia dos Pais lado a lado. A manhã começou com exercícios: o irmão recém-descoberto ensinou tênis, enquanto José Cláudio assistia da arquibancada. Depois, ainda sobrou energia para arremessos de basquete e piadas que, segundo Rebecca, a fizeram sentir-se “completa e feliz”.
Aos poucos, eles buscam compensar três décadas de distância. “Não dá para recuperar 30 anos em um mês, mas estamos construindo essa relação”, disse José Cláudio à filha. Rebecca também ganhou dois irmãos e mantém o conselho para quem procura a própria origem: foco no objetivo e paciência com cada obstáculo.
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