A cena de um bebê dormindo sozinho no carrinho, deixado do lado de fora de um café dinamarquês, intrigou a jornalista Marina Lopes. Ao longo de anos morando nos Estados Unidos, Brasil, Moçambique e Cingapura, ela percebeu que esse tipo de prática — tão estranha para uns, tão comum para outros — revela como cada sociedade encara a criação dos filhos. Agora, aos 34 anos e mãe de Oliver, 7, e Dahlia, 5, Marina reúne essas descobertas no livro Please Yell at My Kids, ainda inédito no Brasil.
Na obra, a repórter carioca aponta um problema comum em países ocidentais desenvolvidos: pais cada vez mais sozinhos e sobrecarregados. “A parentalidade nunca foi tão isolada ou intensa quanto é hoje”, resume ela. Da Dinamarca à Malásia, Marina procurou entender que valores sustentam costumes tão variados — de crianças holandesas largadas na floresta para ganhar autonomia a vizinhos que se unem para dividir o cuidado diário.
Vivência em quatro países inspira livro
Filha de brasileiros, Marina viveu nos Estados Unidos desde os 9 anos, voltou ao Brasil como correspondente do Washington Post em 2016 e, depois, passou temporadas em Moçambique e Cingapura. Foi nesse vaivém que ela constatou: muito do que encaramos como “jeito certo” de educar é, na realidade, construção cultural.
O título provocativo — “Por favor, gritem com meus filhos”, em tradução livre — ecoa a saudade de uma rede de apoio mais coletiva. “Em Cingapura, era normal outros adultos corrigirem as crianças; já nos EUA, isso soa invasivo”, compara. A diferença se reflete no dia a dia: enquanto famílias norte-americanas enfrentam a rotina praticamente sozinhas, brasileiros ainda contam, em boa parte, com avós, tios e vizinhos.
Redes de apoio e autonomia infantil ganham destaque
Ao investigar hábitos ao redor do globo, a jornalista listou exemplos que chamam atenção:
- Dinamarca: bebês tiram soneca do lado de fora, mesmo no frio;
- Holanda: escolas levam grupos de crianças à floresta para que encontrem o caminho de volta;
- Malásia: amigos dividem casa e responsabilidades, funcionando como “família escolhida”.
Marina adaptou parte dessas lições em casa: deixou os filhos cuidarem de pequenas tarefas, autorizou que caminhassem sozinhos pela vizinhança e passou a dividir cuidados com amigos próximos. Segundo ela, pequenas mudanças bastaram para reduzir ansiedade e solidão comuns entre pais.
Imagem: Internet
Diferentes jeitos de ser pai e mãe: Brasil x EUA
Nos Estados Unidos, sair de casa aos 18 anos e ver os pais apenas em feriados é regra — algo impensável para muitas famílias brasileiras. “Lá, a independência vira falta de ajuda quando chega a hora de criar filhos”, relata Marina. Já no Brasil, ainda que grandes centros sigam rumos mais individualistas, a presença da família ampliada continua relevante, inclusive na maternidade: festas no hospital, visitas frequentes e trocas de experiência entre gerações.
Please Yell at My Kids: What Cultures Around the World Can Teach You About Parenting in Community, Raising Independent Kids, and Not Losing Your Mind custa R$ 132,73 na Amazon, mas segue sem data de lançamento em português.
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