Os primeiros dias de vida da pequena Liz, hoje com quatro meses, deveriam ser marcados por mamadas tranquilas e noites viradas de colo. No entanto, a advogada Andressa Africo Rocco, 33 anos, trocou a poltrona de amamentação pela poltrona da quimioterapia. “Saí do peito para o soro”, resume.
Sem histórico familiar e com uma gestação sem intercorrências, Andressa identificou, ainda no final da gravidez, um nódulo na mama esquerda. O desconforto foi atribuído a um possível leite empedrado. Insistente, ela pediu exames logo após o parto e ouviu o que temia: câncer de mama triplo negativo, tumor grande, oito centímetros, tratamento urgente.
Do primeiro sinal ao diagnóstico definitivo
Quando Liz completou dois meses, a ultrassonografia apontou alteração suspeita e a biópsia confirmou o câncer mais agressivo entre os tipos de mama, aquele que não responde a receptores de estrogênio, progesterona nem à proteína HER2. O obstetra encaminhou Andressa a uma mastologista, que recomendou consulta imediata com oncologia.
Segundo a médica Bianca Fava, dos Hospitais Samaritano Paulista e Alvorada Moema (SP), tempo é decisivo nesse cenário: “Quanto antes o tratamento começa, maiores são as chances de controle”. A demora entre o sinal inicial e o laudo definitivo permitiu avanço da doença, exigindo interrupção precoce da amamentação – ponto que mais frustrou a nova mãe. “Preparei curso, comprei acessórios, sonhava com as noites de peito”, lamenta.
Protocolo intenso e viagens semanais
O cronograma de combate inclui 16 sessões de quimioterapia – quatro “vermelhas”, consideradas fortes, e doze “brancas”, aplicadas semanalmente – além de imunoterapia, conquista obtida pelo convênio. As aplicações acontecem em Santos, a cerca de 250 km de Pirassununga, cidade onde a família vive. Cada bate-volta acrescenta exaustão ao cansaço típico do pós-parto.
Medo, culpa e rede de apoio
Os efeitos colaterais pesam, mas, para Andressa, o maior impacto é emocional. “É uma ‘licença maternidade médica’. Volto da quimio e não consigo me doar 100%”, admite. A rotina só é possível graças ao marido e aos parentes que assumem os cuidados com Liz. A oncologista destaca a importância de acompanhamento psicológico no puerpério: muitas pacientes sentem obrigação de permanecer fortes e silenciam o medo.
Imagem: Internet
O caso também revela falhas de escuta diante de mulheres jovens. Andressa relata que, desde a adolescência, ouvia que cistos seriam inofensivos por causa da idade. “Hoje vemos pacientes de 25, 28, 30 anos”, alerta Bianca. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) projeta 73.610 novos diagnósticos por ano entre 2023 e 2025, reforçando a necessidade de rastreamento precoce e atenção aos sinais.
Enquanto encara a perda de cabelo, a fragilidade física e a distância temporária da filha, Andressa mantém a meta clara: “Preciso me cuidar para continuar viva por ela”.
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