Imagine descobrir que, aos olhos da ciência, nenhum de nós chega ao mundo realmente pronto. A frase soa estranha, mas ganhou força em 1961, quando o antropólogo inglês Ashley Montagu publicou um artigo no Journal of the American Medical Association propondo que todo bebê humano nasce antes da hora.
O tema voltou ao centro do debate pelo pediatra Moises Chencinski, que resgatou o trabalho de Montagu para explicar por que passamos meses dependentes de cuidados intensos enquanto outros animais correm, nadam ou se alimentam sozinhos logo após o parto.
Da maturação do cérebro à alimentação exclusiva pelo leite materno, cada ponto reforça a tese de que o “quarto trimestre” acontece fora do útero. E, quando o parto realmente ocorre antes das 37 semanas, a urgência por acolhimento e nutrição adequada fica ainda mais evidente.
Por que Montagu diz que somos prematuros
No artigo de outubro de 1961, Montagu questionou: “Por que os seres humanos nascem em estado tão imaturo que levam de 8 a 10 meses para engatinhar e mais 4 a 6 meses para andar e falar?”. O antropólogo comparou nossa trajetória com a de um elefante ou um gamo, que correm com o grupo logo após o parto, ou com a de uma foca, cujo filhote nada sozinho em seis semanas.
Segundo ele, o cérebro humano pesa 300 a 350 g ao nascer, dobra em três meses, triplica no primeiro ano e atinge quase 1,3 kg aos três anos. Nenhum outro mamífero carrega tamanho período de dependência fora do útero.
Exterogestação: o ‘quarto trimestre’ fora do útero
Montagu cunhou o termo exterogestação para defender que a gravidez, na prática, dura 12 meses. Os três meses adicionais ocorreriam no colo dos pais, com contato pele a pele, fornecendo calor, segurança e estímulos que o útero já não pode oferecer. Especialistas sugerem estender esse cuidado próximo até, pelo menos, o nono mês de vida, fase em que engatinhar e ficar em pé se tornam comuns.
Leite humano: combustível para o desenvolvimento do ‘prematuro’ universal
Se todos nascem “antes da hora”, nada mais lógico que o cardápio seja personalizado. O leite materno, considerado alimento vivo, muda do início ao fim da mamada, de manhã à noite e ao longo dos meses para suprir cada estágio do bebê. Até o sexto mês, ele é suficiente, desde que a criança sustente cabeça e tronco, sente-se com apoio e perca o reflexo de protrusão da língua.
Imagem: Moises Chencinski
Quando o parto ocorre de fato antes de 37 semanas, o ajuste é ainda maior. O colostro de mães de prematuros contém 58 calorias e 3 g de gordura por 100 ml, contra 48 calorias e 1,8 g no leite de mães de bebês a termo. Após 26 a 29 dias, o leite maduro dessas mães mantém vantagem: 70 calorias e 4,1 g de gordura, frente a 62 calorias e 3 g.
No Brasil, cerca de 300 mil prematuros nascem todos os anos, o equivalente a 12,2% dos partos em 2024. A campanha Novembro Roxo, oficializada no País, convida a vestir a cor no dia 17 para lembrar o Dia da Prematuridade e reforçar o lema: “Garanta aos prematuros começos saudáveis para futuros brilhantes”.
Quando a amamentação direta não é viável, a recomendação é extrair o leite na própria maternidade ou procurar um Banco de Leite Humano. Assim, a produção materna se mantém e o bebê recebe seu alimento ideal, acelerando a alta hospitalar.
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