Ana Cláudia Dantas, 44 anos, nunca esqueceu a imagem das mães que conheceu durante um rodízio em onco-hematopediatria, quando ainda cursava medicina. A cena disparou um alerta interno: algo lhe dizia que, um dia, também enfrentaria aquele cenário com um filho. Anos depois, já formada e com a vida organizada, ela resolveu agir antes mesmo de engravidar: congelou o cordão umbilical de cada um dos três filhos.
Foi uma aposta em prevenção que, tempo depois, se revelou decisiva. Quando o primogênito Arthur apresentou sintomas persistentes – palidez, febre e quedas nos índices sanguíneos após uma gripe – exames confirmaram uma aplasia grave da medula óssea, condição rara em que as células responsáveis pela produção de sangue simplesmente param de funcionar.
Com o diagnóstico, a família descobriu que a chance de cura estava guardada em casa: o irmão mais novo, Vitor, era 100% compatível para transplante de medula, e o material do cordão congelado estava pronto para uso. Começava, ali, a corrida contra o tempo.
A intuição que virou prevenção
A decisão de armazenar o cordão umbilical veio do “pressentimento” que Ana Cláudia sentiu ainda na faculdade. “Com planejamento, o valor cabe no bolso”, conta a médica, que hoje enxerga o gesto como parte de um cuidado preventivo mais amplo. Especialistas reforçam que o congelamento não é obrigatório para todas as famílias, mas pode ser discutido com o obstetra caso haja condições clínicas específicas ou histórico familiar de doenças hematológicas.
No caso de Arthur, a aplasia foi classificada como adquirida, já que testes genéticos descartaram a origem congênita. Segundo a onco-hematologista pediátrica Simone Franco, do Hospital Brasília, não existe exame preventivo capaz de identificar a doença antes dos sintomas. Por isso, a compatibilidade total entre irmãos foi comemorada pela família como “um presente dentro de casa”.
Transplante caseiro e recuperação passo a passo
Com compatibilidade confirmada, Arthur passou pelo processo de condicionamento – combinação de quimioterapia e imunoterapia que prepara o organismo para receber as células-tronco. As amostras, descongeladas em laboratório, foram infundidas por um cateter venoso central.
Desafio técnico da onco-hematologia pediátrica
Simone explica que transplantes em crianças exigem precisão extrema. Após a infusão, a equipe monitora a chamada “pega” da medula, quando a nova produção sanguínea começa. Em Arthur, o resultado foi total: 100% de engraftment. “A readaptação dele ao convívio familiar foi linda”, relata Ana Cláudia.
Imagem: Internet
Foram quase 80 dias de internação e, depois, isolamento em um apartamento. A família se revezava usando máscaras N95. Para preservar o equilíbrio emocional, os irmãos menores, então com 4 e 6 anos, iniciaram psicoterapia. Hoje, Arthur sonha em ser construtor – metáfora perfeita, segundo a mãe, para quem teve de reconstruir a própria saúde.
Embora o cordão congelado tenha sido a chave neste caso, Simone destaca que a medicina já oferece alternativas como o transplante haploidêntico, feito com doadores parcialmente compatíveis. “Raramente uma criança fica sem opção”, afirma a especialista.
Ana Cláudia segue defendendo o planejamento e a prevenção, mas sem receita única: “Informar-se, conversar com especialistas e decidir de maneira consciente é o que faz diferença”.
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