Quando a filha de cinco anos voltou para casa chorando por não ter participado de uma atividade religiosa, a administradora de projetos Amy Davis foi pega de surpresa. Ela não havia assinado a autorização para as aulas e, de repente, viu a menina ser tratada de forma diferente na sala de aula. A situação acendeu um alerta: havia um programa cristão operando no meio da rotina escolar.
O episódio aconteceu na rede pública de Hilliard, Ohio (EUA), onde a organização LifeWise Academy oferece ensino bíblico fora do prédio escolar, porém durante o expediente de aula. A iniciativa funciona amparada por uma brecha legal, mas o caso expôs dúvidas sobre pressão social, limites entre religião e ensino público e a liberdade das famílias.
Como o LifeWise entra na agenda escolar
O LifeWise Academy é um programa cristão sem fins lucrativos que aproveita as chamadas “released time” – leis que permitem a saída de alunos da escola para instrução religiosa sob três condições: atividade fora do campus, financiamento privado e consentimento dos responsáveis.
O que diz o material didático
De acordo com o site da entidade, o currículo percorre a Bíblia de Gênesis a Apocalipse ao longo de vários anos. Desenvolvido em parceria com o Gospel Project, ligado à Convenção Batista do Sul, o conteúdo inclui lições sobre caráter, moral e valores cristãos. Os instrutores recebem roteiros de respostas sobre temas como vida após a morte e sexualidade; a organização se posiciona contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e contra identidades transgênero ou fluidas.
Hoje, a iniciativa está presente em mais de 520 localidades de 23 estados — eram 331 em 13 estados no ano anterior. Segundo o fundador e CEO Joel Penton, cerca de 31 mil estudantes frequentam as aulas, e o objetivo declarado é alcançar 50 milhões de alunos da rede pública em todo o país.
Pressão sobre quem fica e reação dos pais
Ao recusar a autorização, Amy relata ter recebido um novo formulário todos os dias, entregue pela própria professora da filha. A menina, ainda no jardim de infância, passou a se sentir isolada enquanto colegas saíam para as lições bíblicas — segundo a mãe, alguns saem até no horário de recreação, arte, música ou almoço.
Imagem: Internet
Em vídeo nas redes sociais, Amy afirma que ensinar religião é responsabilidade da família e defende que, se uma confissão for apresentada, outras também deveriam ser mostradas. Ela também critica o uso de “doces e camisetas chamativas” para atrair crianças, alegando que a estratégia mira lares não religiosos e famílias de baixa renda.
Diante do cenário, a mãe planeja levar a queixa à direção e ao conselho escolar. Entre os comentários de apoio, usuários do TikTok sugeriram buscar entidades de defesa do Estado laico, como a Freedom From Religion Foundation, e reforçaram que ela não ceda à pressão.
Enquanto isso, professores e outros pais ainda tentam entender como conciliar a rotina pedagógica com o vaivém dos estudantes que aderem à programação religiosa.
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